Na empresa familiar, o problema de um raramente fica só com ele. O acordo de sócios não impede que alguém erre, mas decide, com antecedência, quanto esse erro alcança os demais. Primeiro conteúdo da série Efeito dominó.

Efeito dominó: quando o problema de um vira problema de toda a família empresária

Em uma empresa familiar, ninguém age totalmente sozinho. O sobrenome que está na fachada, no contrato com o banco e na conversa com o fornecedor é o mesmo que cada membro da família carrega no dia a dia. Por isso, quando algo dá errado na vida de um, o efeito costuma se espalhar como uma fileira de peças de dominó.

Este artigo inaugura uma série sobre esse fenômeno: problemas que parecem individuais, mas que, sem uma solução combinada com antecedência, acabam alcançando a empresa, o patrimônio, a imagem do grupo no mercado e a própria convivência familiar.

Uma situação hipotética, mas comum

Imagine um grupo familiar que construiu, ao longo de décadas, uma empresa respeitada na sua região. O fundador já dividiu as quotas com os filhos, e todos são sócios. Não há acordo de sócios: as decisões sempre foram tomadas “em família”, na confiança.

Um dos filhos passa a acumular dívidas pessoais, se expõe publicamente de forma negativa ou se envolve em uma situação que chega aos jornais da cidade. A conduta é dele. Mas o nome é de todos.

A partir daí, as peças começam a cair. O gerente do banco pede explicações antes de renovar o crédito. Um parceiro comercial revisa o contrato, porque tem regras internas de conformidade e reputação. Os outros irmãos não sabem se podem, ou se devem, afastar o sócio da administração. O fundador se vê obrigado a escolher entre proteger o filho e proteger o que construiu. E cada decisão é tomada no calor da crise, sem regra prévia, com o conflito já instalado.

O que o acordo de sócios faz, e o que ele não faz

É importante ser honesto: nenhum documento controla o comportamento de uma pessoa. O acordo de sócios não impede que alguém erre.

O que ele faz é decidir, com antecedência e com serenidade, quanto o problema de um alcança os demais. Em vez de a família improvisar no pior momento, ela segue o que combinou quando todos estavam bem e de acordo.

Alguns pontos que costumam ser tratados nesse documento:

  • Quem pode administrar a empresa e representar o grupo, com quais critérios de preparo e responsabilidade.
  • Como o nome da família e a marca da empresa podem ser usados.
  • Quais condutas são incompatíveis com a posição de sócio ou administrador, e quais as consequências.
  • Como funciona a saída de um sócio e o pagamento do que lhe cabe.
  • Que limites existem para a venda ou a cessão de quotas a terceiros.
  • Como os conflitos serão conversados e resolvidos antes de chegarem ao Judiciário.

Nas sociedades limitadas, a lei permite, inclusive, que o contrato social preveja a exclusão de sócio que, por atos de inegável gravidade, coloque em risco a continuidade da empresa, observado o procedimento legal. Sem essa previsão, o caminho tende a ser mais longo e desgastante.

O acordo de sócios costuma caminhar ao lado do protocolo familiar, documento que registra os valores do grupo, as expectativas sobre a participação de cada um e a forma de preparar as próximas gerações.

A regra combinada antes também protege quem erra

Há um aspecto humano que costuma passar despercebido. Quando não existe regra, o membro da família que enfrenta um problema é julgado no impulso, por quem está magoado ou com medo. Quando existe, ele sabe de antemão qual é o caminho, quais são as consequências e, muitas vezes, como pode voltar.

Combinar regras é também uma forma de cuidar das pessoas: dar clareza aos herdeiros, valorizar o preparo de quem vai assumir responsabilidades e preservar os laços familiares quando a situação fica difícil. O patrimônio importa, mas o que sustenta um grupo familiar ao longo das gerações são os princípios que ele consegue transmitir.

Antes que a crise decida

O efeito dominó não começa no dia do problema. Ele começa no dia em que a família deixou para depois uma conversa necessária. Organizar a relação entre os sócios enquanto todos estão de acordo é o que permite que, diante de uma dificuldade, a decisão seja tomada pela família, e não pela crise.

Cada grupo familiar tem sua história, sua composição e seus desafios, e as regras precisam refletir essa realidade. Por isso, qualquer estruturação depende de análise individual.

Perguntas frequentes

O acordo de sócios é obrigatório?

Não. A lei não obriga, mas, sem ele, muitas situações delicadas ficam sem regra prévia e acabam sendo resolvidas no conflito.

Acordo de sócios e protocolo familiar são a mesma coisa?

Não. O acordo de sócios trata das relações societárias, como administração, voto e saída de sócios. O protocolo familiar registra valores, expectativas e regras de convivência entre família e empresa. Os dois costumam se complementar.

Uma empresa pequena ou recém-organizada precisa disso?

O tamanho da empresa importa menos do que a presença de familiares como sócios. Quanto mais cedo as regras são combinadas, mais natural é a conversa.

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e não substitui a análise do caso concreto.

Mauro Jarenko, advogado, Empresa, Patrimônio e Sucessão.